quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Silêncio




A humanidade se divide em vivos que já morreram e alguns mortos, que ainda estão vivos. Há os mortos que fizeram muito bem em ter morrido e uma infinidade de vivos, que ninguém sabe por qual motivo estão ainda vivos.
Dificilmente alguém morre no dia certo. Sempre antes ou depois.
São poucos os vivos que nos dão alegrias, gostos, felicidades enfim. Daí o homem ser tão só, de uma solidão que só o fortalece; que só elucida as vantagens de ser cada vez mais só.
O imbecil completo ou o mal-feliz incurável é aquele que precisa cercar-se de muitas pessoas. O homem que faz ou recebe visitas. O homem deserto que não se basta a si mesmo. Não haveria coquetéis, jantares, torneios de biriba e cinema em casa, se cada homem fosse um pouquinho mais feliz, inteiramente só, ou no convívio de sua companheira.
Malgrado minha pobreza, que, diga-se de passagem, já foi pior, rendo graças a Deus, todos os dias, por ser quem sou. Perguntassem-me: “Se você nascesse outra vez, queria ser quem?” Responderia: “Antônio Maria Araújo de Morais, gordo, calvície progressiva e, como se tudo não bastasse, natural de Pernambuco”. Não é que eu me ache uma perfeição. É porque eu nunca preciso visitar, nem ser visitado. É porque as outras pessoas, de um modo geral, são tão perdidas, tão estúpidas, que, havendo uma reencarnação, meu espírito morreria de tédio se houvesse de encarnar outra matéria.
Haverá quem me considere um cronista amargo, odioso em um dia de caridade. Em um Dia de Finados. Ao contrário, estou feliz. Mas minha felicidade é lúcida. Faz-me ver, claramente, as coisas e os homens. E saber, claramente, que as coisas são melhores que quase todos os homens.
O Dia de Finados é a efeméride da lágrima e da flor convencionais. O dia do sentimento convencional.
Não me emocionam em nada as pessoas que passam, a caminho dos cemitérios. São grupos humanos em tudo e por tudo semelhantes aos dias de carnaval. Para diferi-los, ficou combinado que, no carnaval, todos devem rir e cantar. No Dia de Finados, chorar e carregar flores.
Eis alguns comentários de pessoas que vão aos cemitérios no Dia de Finados:
- Este ano as flores estão pela hora da morte.
- No ano passado havia mais condução e o policiamento era mais perfeito.
- Este ano nem refresco havia à porta do cemitério.
A última vez que entrei num cemitério foi em 1928. Tinha sete anos. Logo, não fui, propriamente. Levaram-me. De lá para cá, me convenci de que as pessoas que vão aos enterros sentem prazer em serem cúmplices da cerimônia cruel do enterramento.
Hoje, Dia de Finados, quanta gente passando, às risadas, indo para o cemitério ou vindo de lá. Por que então? Por que não respeitar o silêncio e o esquecimento dos mortos? Por que não deixá-los em paz, no Campo Santo? Seria mais cristão e mais honesto que rezássemos uma ave-maria bem baixinho por cada um dos nossos mortos, por todos os mortos, por todos aqueles que alcançaram o silêncio. Ah, é feio e triste passar na porta do cemitério e ver os vivos às gargalhadas, rindo dos mortos e comendo churrasquinhos; bebendo mate e laranjada. Por alma de quem? Em lembrança de quem?
Quando eu estiver morto, não me levem as lágrimas, nem flores no Dia de Finados. Nem vão comer churrasquinhos perto de mim. Nem beber laranjada. Nem riam alto. Porque eu estarei dormindo, afinal, depois de todo amor, depois da viagem toda, depois de toda fadiga.
Antônio Maria

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